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Acer busca destronar HP da liderança em PCs
Valor Econômico - SP
J.T. Wang, presidente do conselho de administração da Acer: companhia vende hoje 13,4% de todos os computadores pessoais comercializados no mundo
É uma noite de sábado de fevereiro e mais de 2 mil funcionários da Acer se comprimem num centro de exposições para a festa do Ano Novo Lunar da companhia. Enquanto os convidados se fartam de sopa de castanha, abalone (um tipo de molusco) cozido e frango frito, um grupo de comediantes locais faz imitações de executivos da companhia.
Entre os convidados está Gianfranco Lanci, o italiano de 55 anos que é o primeiro executivo-chefe da Acer não nascido em Taiwan. Seu imitador cola uma careca falsa na cabeça e murmura algumas frases em italiano, mudando em seguida para o inglês. "Na minha opinião, a Acer já é a número 1", declara o falso Lanci, adiantando-se ao objetivo da Acer de tomar da Hewlett-Packard (HP) o posto de maior fabricante de PCs do mundo.
Lanci e o presidente do conselho de administração da companhia, J.T. Wang, ainda não chegaram lá, mas estão se aproximando. A Acer vende hoje 13,4% de todos os computadores pessoais (PCs) comercializados no mundo, estando à frente da DELL, com 12,4%, mas bem atrás da HP, com 21%. Em 9 de fevereiro, a companhia anunciou seu maior lucro trimestral em quase três anos, de US$ 109 milhões com crescimento de 25%. As vendas cresceram 28%, bem acima da média do setor, de 15%, com os consumidores fazendo filas para aproveitar as ofertas baratas da Acer.
Este ano, a Acer espera conseguir o topo do ranking no segmento de laptops. Isso não deverá ser difícil: ela já é a líder nos netbooks - as pequenas e baratas máquinas lançadas em 2008 - e está palmo a palmo com a HP nos computadores portáteis. O presidente do conselho de administração Wang afirma que assim que a Acer assumir a liderança nesse segmento, não vai demorar para ela destronar os americanos. "Dentro de dois ou três anos poderemos assumir o primeiro posto no segmento de PCs", afirma ele. "Não faz muita diferença para nós se isso acontecerá em 2012 ou 2013." A HP não quis comentar as previsões audaciosas de Wang.
Wang, de 55 anos, entende que esse excesso de confiança pode não ser bom para a Acer. Portanto, em sua sala ele tem emoldurada na parede uma cópia do jornal "Economic Daily News" de Taiwan de setembro de 2002, quando a Acer era na melhor das hipóteses uma companhia de segunda linha. A página do jornal destaca os planos da Acer para o lançamento de um novo PC "tablet" - um produto que rapidamente se transformou em um fracasso. A lição aprendida por Wang: deixar os outros assumirem a liderança nos equipamentos mais novos e modernos e permanecer focado nos computadores baratos de qualidade. "Não posso desperdiçar recursos", afirma ele. Quando o assunto é o lançamento de inovações, "nós podemos ser o número 2. Isso não é nenhum problema para nós". É por isso que a Acer permitiu que uma concorrente de Taiwan, a Asustek, fizesse a primeira movimentação no segmento dos netbooks. Assim que as máquinas mostraram ser um sucesso, a Acer entrou em cena e se tornou a número 1.
Ser o líder não significa muito se você tiver que sacrificar as margens de lucro para chegar lá. É por isso que alguns investidores temem que o esforço para superar a HP desemboquem em uma guerra de preços capaz de devastar seus lucros. A margem operacional da Acer no quarto trimestre do ano passado foi de 2,95%, uma melhoria em relação aos 2,24% do terceiro trimestre, mas bem menor que os 4,71% da divisão de computadores da HP.
As preocupações com a lucratividade ajudaram a reduzir o preço da ação da Acer na Bolsa de Valores de Taiwan em 13% desde 15 de janeiro, contra uma queda de 10% no preço da ação da HP e da Dell. "Não achamos que [sacrificar os lucros em troca de participação de mercado] seja a estratégia certa para nossos acionistas", diz Stephen J. Felice, diretor da divisão de consumo e pequenos negócios da Dell. Ao mesmo tempo, acrescenta ele: "Não estamos cedendo o segundo lugar para a Acer".
Na corrida de Lanci e Wang para permanecer à frente da DELL e destronar a HP, eles transformaram o que era um bastião da administração taiwanesa na companhia mais globalizada da indústria dos PCs. Enquanto os altos escalões da HP e da DELL são dominados por americanos e a liderança da Lenovo é em grande parte chinesa, a equipe da Acer inclui um executivo francês que supervisiona a área de telefones móveis, um diretor de marketing italiano, um alemão que comanda as operações na China, um austríaco que lidera as operações nos Estados Unidos e um americano que comanda os negócios no Brasil. "Se você quer tocar uma companhia globalizada, precisa de talentos globalizados", afirma Lanci.
Essa equipe globalizada terá que fazer algumas mudanças no modelo de negócios se a Acer quiser alcançar seu objetivo. A companhia é mais forte nas vendas aos consumidores, usando quatro marcas para atender vários segmentos: eMachines para aqueles que se preocupam principalmente com o preço, Gateway (nos EUA) e Packard Bell (na Europa) para a faixa intermediária, e Acer para os fanáticos por tecnologia. A postura multimarcas foi desenvolvida depois que a Acer comprou a Gateway em 2007 por US$ 710 milhões, o que ajudou a companhia a ganhar espaço nas prateleiras das lojas, segundo afirma o diretor de marketing Gianpiero Morbello. "É difícil fazer um comerciante disponibilizar 50% de seu espaço para uma única marca", afirma Morbello, que passou grande parte do mês de fevereiro entretendo clientes em Vancouver, na Olimpíada de Inverno, onde a Acer era uma das patrocinadoras. "É mais fácil dividir o mesmo espaço com três marcas."
No entanto, as empresas não compram seus PCs na Best Buy ou no Walmart. O foco da Acer nas vendas ao consumidor não tem sido um problema nos últimos dois anos, uma vez que as empresas reduziram os gastos com tecnologia. Mas a melhoria das perspectivas econômicas e o lançamento do Windows 7 provavelmente estimularão uma reação das encomendas pelas empresas este ano. Atender compradores empresariais envolve mais mão de obra que a venda aos consumidores, uma vez que as empresas precisam de grandes equipes para gerenciar a logística e o suporte ao cliente. "Eles querem exatamente o mesmo modelo de PC no mundo inteiro, com exatamente os mesmos serviços de suporte", diz Tracy Tsai, analista da consultoria Gartner em Taipé. Isso é uma coisa que a Acer vem evitando, de modo que muitos potenciais compradores não conhecem os produtos da companhia. Conforme ela fica mais conhecida, diz Tsai, "há uma boa chance de a companhia conseguir algum crédito e ganhar a confiança dos compradores empresariais".
Lanci pretende fazer justamente isso. Em novembro ele começou a lançar uma nova linha de servidores - máquinas maiores e mais robustas usadas por empresas para armazenar dados, lidar com números e gerenciar redes. Até o fim do ano Lanci pretende fazer com que os servidores respondam por cerca de 4% da receita da Acer. Eles oferecem margens aproximadamente duas vezes maiores que os PCs. Lanci prevê que os novos servidores, mais a equipe adicional dedicada às vendas empresariais, rapidamente se pagarão. "Nós sempre mantivemos um perfil empresarial reservado porque queríamos desenvolver outras partes de nossos negócios primeiro", diz o executivo. Este ano ele promete que "os esforços na área comercial serão grandes".
Isso não significa que Lanci esteja se esquecendo dos consumidores. A Acer está desenvolvendo um leitor eletrônico de livros semelhante ao Kindle, da Amazon, laptops que rodam no sistema operacional Chrome do Google e aparelhos para competir com o iPad da Apple. Em 2009, a Acer lançou seus primeiros telefones inteligentes. Lanci espera vender mais de 2 milhões deles este ano, e até 2013 pretende obter 10% das receitas com a área de celulares.
Em breve a Acer abrirá uma loja de aplicativos nos moldes da lançada pela Apple, que vai oferecer programas voltados para esses novos aparelhos. Enquanto vários tipos de novos aparelhos chegam ao mercado, Lanci afirma estar menos preocupado com o domínio do setor de PCs e mais interessado em ser líder nos aparelhos eletrônicos de vários tipos. "O setor vai mudar muito nos próximos cinco anos", diz Lanci. "Para nos tornarmos o número 1, teremos que continuar concentrados nas tecnologias móveis e o telefone inteligente é apenas o começo da história." (Tradução de Mário Zamarian)
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